segunda-feira, 28 de maio de 2012

ASTURIAS NATURAL PARADISE

ASTÚRIAS

Astúrias e Picos da Europa Uma viagem às Astúrias e à Cantábria é bem mais do que uma imersão num inestimável património natural de que é ex-libris a cordilheira dos Picos da Europa. Oviedo, a capital das Astúrias, Gijón e Avilés formam uma espécie de triângulo dourado para o visitante. Relato de uma viagem por uma das belas regiões de Espanha, ao encontro das terras altas dos Picos da Europa, das pequenas aldeias de montanha e, claro, de um copo da inevitável sidra.

ASTÚRIAS

PAISAGENS PRIMORDIAIS NAS ASTÚRIAS E NA CANTÁBRICA Mar e montanha, dois elementos que não são simples cenário no Principado das Astúrias e na Cantábria. O viajante mais atento, ou de coração aberto aos murmúrios da terra, poderá descobrir nos mais pequenos gestos ritualizados no quotidiano a presença dessas duas referências essenciais da identidade de uma das mais belas regiões do país vizinho. E descobrir que a extraordinária beleza da região toma forma muito antes - ou para além - de uma paisagem de suaves colinas verdejantes, de respeitáveis montanhas que guardam marcas de velhos glaciares, de um litoral inconstante e harmonioso ao mesmo tempo. Picos da Europa, Astúrias Uma viagem às Astúrias e à Cantábria é, todavia, bem mais do que uma imersão num inestimável património natural, representado fundamentalmente pela cordilheira dos Picos da Europa, pelo recém criado Parque Natural de Somiedo ou pela surpreendente linha litorânea que vai de Llanes a Luarca, salpicada de encantadores portos pesqueiros e de algumas praias de areia fina como a de Rodiles, com mais de um quilómetro de estensão. O território revela-nos a cada passo uma história e uma cultura cheias de ditosos matizes. Oviedo, a capital, Gijón e Avilés formam uma espécie de triângulo dourado para o visitante. Com um pormenor não desprezável: os percursos de montanha, os prazeres do litoral e a vida urbana podem ser usufruídos sem o inconveniente da distância. Neste recanto da Península reina, enfim, uma irmandade geográfica propícia a facilitar a vida ao viajante. Cangas de Onís e Covadonga, portas de entrada do Parque Nacional de Covadonga distam uns trinta quilómetros do litoral, tal como Oviedo, e da capital sturiana aos Picos da Europa medeia uma hora, ou menos, de viagem. Para leste, Potes é um dos melhores pontose de partida para explorar o maciço central dos Picos. Muito aconselhável é o percurso pela comarca de Liébana até Fuente Dé, onde se situa o teleférico que deixa os viajantes quase mil metros acima, numa paisagem de fragas abruptas cobertas de neve, e de onde se goza uma vista soberba sobre os vales vizinhos. Outro ponto de passagem obrigatória dos Picos da Europa é Pousada de Valdeón. Aí começa a Rota do Cares, um trilho que acompanha a garganta do Rio Cares durante cerca de dez quilómetros até à povoação de Caín. É um dos mais populares caminhos pedestres do Parque Nacional dos Picos da Europa.

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NAVA, A CAPITAL DA MAÇÃ / Entre Nava e Villaviciosa, um povoado assente numa zona de costa recortada, estendem-se inúmeros pomares que tomam no Outono as regulamentares cores amarela e vermelha. Os pomares asturianos ocupam uma área superior a sete mil hectares e os lagares industriais têm capacidade para cerca de quarenta milhões de litros de sidra, quantidade que pode ser atingida nos melhores anos de produção. Trilho ao longo do desfiladeiro do rio Cares, Picos da Europa Numa terra de clima nada propício ao cultivo da vinha, a sidra é a bebida de referência para convívios e festejos, néctar que nos últimos anos tem vindo a recuperar a sua popularidade, como prova o crescente número de sídrerias que vêm surgindo um pouco por toda a parte e sobretudo em Oviedo, onde as noites de copas não dispensam o velho ritual de escanciar. Com a garrafa bem acima da cabeça, o braço esticado, e o copo tão baixo quanto se possa, a sidra “voa” um bom metro antes de se precipitar no copo. Diz-se que este processo permite ao líquido um mais prolongado contacto com o ar e, consequentemente, a libertação de impurezas. À quantidade de sidra servida chama-se culín e as festas tradicionais que lhe são consagradas são conhecidas por espicha. Este tipo de festividades tinha normalmente a função de degustar colectivamente a nova colheita. Em Nava, uma espécie de capital da sidra, encontram-se sidrerías porta sim porta não na Plaza Mayor e nas ruas à volta. Uma vez por ano, em Julho, a povoação organiza uma grande festa sem outro pretexto que o de homenagear a bebida e repetir até à exaustão o ritual teatralizado que acompanha o seu consumo.

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DE COVADONGA A LOS BEYOS, NOS PICOS DA EUROPA / Continuando em direcção a leste, chegamos a Cangas de Onís. A partir desta cidade, começamos a subir para os Picos da Europa e para o Parque Nacional de Covadonga. A basílica neo-românica de Covadonga, concluída em 1901 e concebida pelo arquitecto Federico Aparici como uma imitação das grandes catedrais germânicas medievais, não apresenta grande interesse a não ser por via da sua localização. Neste capítulo, poderá o viajante guardar a curiosidade para os muitos exemplos de arquitectura pré-românica dispersos pelo território asturiano e, sobretudo, para o mosteiro românico de Santo Toribio de Liébana e para a igrja moçárabe de Santa Maria de Lebeña, perto de Potes. Lago Enol, no maciço central dos Picos da Europa Junto da basílica de Covadonga existe uma gruta que é centro de peregrinação religiosa desde o séc. VIII. Há que notar que em dias de festa ou fins de semana pode ser um verdadeiro suplício percorrer o serpenteante caminho de acesso ao santuário desde Cangas de Onís, ou até mesmo a sua sequência para o coração do parque. O ideal será escolher épocas não festivas ou dias de semana - em todo o caso, a pressão turística diminui bastante no Outono. Continuando a subir, a próxima etapa leva-nos até aos famosos lagos de Covadonga, vencendo um desnível de mais de mil metros. Pelo caminho passamos pelo Mirador de la Reina, um fantástico mirante virado a norte. No percurso, os alcantilados rochosos de impressionante recorte alternam com vales e encostas onde se pode observar florestas de faias, tílias e azevinho. A pouco mais de mil metros de altitude surge o Lago Enol e logo seguir o Lago Ercina, de origem glaciar. Imprescindível também, no domínio do património natural, é um périplo pelo desfiladeiro de Los Beyos, uma espectacular garganta fluvial que acompanha o curso do rio Sella, ao longo de 14 km, a sul de Cangas de Onís. O trajecto pode ser enriquecido com visitas a algumas das aldeias do vale, Caño, Tornín, La Veja e Sames, quase sempre enquadradas por cenários dramáticos de cumes calcários. Em Los Grazos, perto de Tornín, há uma velha ponte romana.

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OVIEDO - ANDANÇAS URBANAS E ARQUITECTURA ROMÂNICA / A atmosfera descontraída de Oviedo pode transformar-se num oásis depois de umas quantas incursões às montanhas. A cidade possui uma área notável de espaços peatonais e jardins. Caminhar no centro é um dos grandes atractivos da que é, sem dúvida alguma, uma das cidades mais agradáveis de Espanha. Capital comercial e cultural das Astúrias, Oviedo conserva um núcleo urbano de traçado medieval à volta da Praça Alfonso II. A imponente catedral, edificada em estilo gótico flamejante, constitui uma visita indeclinável. No seu interior conserva-se um admirável retábulo do século XVI, além dos túmulos de seis monarcas asturianos. Mas o tesouro mais precioso é a Câmara Santa, uma capela do séc. IX, um relicário da melhor arte sacra. Vista a partir do teleférico de Fuente Dé, Picos da Europa No capítulo do património religioso, os arredores de Oviedo ganham uma importância inexcedível. Aí se radica um conjunto de monumentos pré-românicos classificados pela UNESCO. A Igreja de Santa Maria de Naranco, a 3 km da capital, é a grande jóia deste acervo e testemunho de uma fase importante da história das Astúrias. Foi construída no séc. IX para servir inicialmente de palácio do rei Ramiro, tendo-se convertido em templo posteriormente, no séc. XII. San Miguel de Lillo, San Salvador de Valdediós, San Julián de los Prados e Santa Cristina de Lena, igrejas edificadas nos reinados de Ramiro I e Alfonso II, são igualmente símbolos do imenso partrimónio pré-românico das Astúrias. Gijón, eterna rival de Oviedo, vale também pela dimensão de cidade de província, não obstante o forte desenvolvimento industrial da zona. A beira mar e a grande e formosa praia de San Lorenzo são imagens referenciais da cidade, mas é preciso mergulhar nas ruelas da zona mais antiga, o histórico bairro de Cimadevilla, onde também há muitas sidrerías, para experimentar uma vez mais a atmosfera descontraída que é uma constante no reino asturiano. Finalmente Avilés, a porta de entrada nas Astúrias para quem chega de avião. É um pequena cidade cujos arredores estão marcados pelo desenvolvimento industrial. Mas a parte medieval do burgo, bem conservada, surpreende o viajante. Na Rua Galiana, assim como noutras ruelas vizinhas, sobrevivem velhas casas com varandas em madeira assentes em colunas de pedra. Também neste povoado, que conserva algumas tradições marinheiras, se poderá insistir com pertinência na nota da arquitectura religiosa e recomendar visitas às igrejas de San Nicolás, Santa María Magdalena de Corros e de San Francisco. Convém agora, finalmente, para suspender o que poderia ser uma narrativa interminável sobre os feitiços da região, não apartar estas andanças urbanas do contexto mais vasto que modela a alma e a identidade asturianas e com o qual comunicam por uma teia de fios subtis. Damos, então, a palavra a Ortega y Gasset, que via as Astúrias como o espaço natural de “una raza de hombres capaces de intervenir en la vida contemporánea sin perder la solidariedad del espíritu com el campo nativo”.